O que são sorovariedades de Salmonella e quais os seus riscos para a saúde humana?

 

Salmonella é um gênero de bactérias gram-negativas, pertencentes à família Enterobacteriaceae, não esporogênicas e anaeróbicas facultativas. Possuem estruturas lipopolissacarídicas, intracelulares facultativas e majoritariamente flageladas. Esses bacilos, apesar de sobreviver a uma faixa de temperatura de 5 a 45 °C, são sensíveis a altas temperaturas e geralmente destruídos quando aquecidos a 60 °C, o que não acontece nos processos de congelamento, que apenas reduz o número de bactérias (Saiba 8 informações básicas sobre salmonella que você precisa saber).

Essa bactéria só teve uma uniformidade na nomenclatura em 1970, devido a sua complexa classificação, sendo muito pouco utilizada a classificação em espécies e, por isso, adotada a classificação por sorotipagem. Utiliza-se o esquema de Kauffmann-White, baseado nas diferenças encontradas em certas estruturas antigênicas superficiais das células:

⦁ O envelope celular ou cápsula (antígeno capsular “Vi”);

⦁ A parede celular (antígenos somáticos “O”), distinguíveis ela composição química;⦁ A parede celular (antígenos somáticos “O”), distinguíveis ela composição química;

⦁ Os flagelos (antígenos flagelares “H”), distinguíveis pela composição proteica.⦁ Os flagelos (antígenos flagelares “H”), distinguíveis pela composição proteica.Imagem 1. Esquema representativo da Salmonella sp., mostrando os antígeno O (somático), antígeno H (flagelar), antígeno Vi (capsular). Fonte: Adaptada de Medical Microbiology.

 

Sorotipos de Salmonella

 

Baseado em estudos genômicos, o gênero Salmonella é dividido em duas espécies: Salmonella enterica – agrupa mais de 2500 sorotipos – e Salmonella Bongori – agrupa 22 sorotipos. Mesmo com o número elevado de sorotipos já descritos, existem menos de 100 conhecidos como patógenos humanos.

A maioria dos sorotipos não possui hospedeiro específico, podendo ser encontradas em diversas espécies. No entanto, alguns poucos apresentam preferência por um hospedeiro, as chamadas cepas espécie-específicas:

⦁ S. Typhi e S. Paratyphi A: acometem os humanos;

S. Abortusovis: ovinos; ⦁ S. Abortusovis: ovinos;

S. Abortusequi: equinos;⦁ S. Abortusequi: equinos;

S. Gallinarum e S. Pullorum: aves;

S. Dublin: bovinos;

S. Choleraesuis: suínos.

Um estudo com 37 países que participam da World Health Organization Global Foodborne Infections Network, analisou a distribuição global dos 15 sorotipos de Salmonella mais frequentes em humanos, coletados entre 2001 e 2007. Os resultados desse trabalho mostraram que a espécie mais comumente patogênico é a Salmonella enterica e as cepas mais predominantes nas regiões do estudo foram Enteritidis, encontrados em média em 43,5% dos casos, e Typhimurium 17,1% dos casos. As únicas regiões que não seguiram esse espectro foram na Oceania e na América do Norte, apresentando maior prevalência da Typhimurium seguida pela Enteritidis.

Os sorotipos Newport (3,5 % dos casos), Infantis (1,8%), Virchow (1,5%), Hadar (1,5%) e Agona (0,8%) também apresentaram uma alta taxa de infecções, mas com grandes diferenças entre as regiões. Os dados deste estudo exemplificam a complexidade da epidemiologia global da Salmonella.

 

Alimentos onde são encontradas

 

Como citado anteriormente, as Salmonellas são difundidas geograficamente em todo o mundo. A constituição genética desta bactéria permite sua adaptação a uma variedade de ambientes e animais, sendo o seu principal habitat o trato intestinal. No ambiente, é muito comum encontrarmos os sorotipos na água, no solo, nas fezes dos animais, insetos e ratos e nas superfícies de equipamentos e utensílios de fábricas e cozinhas. Esta adaptação genética permite uma vasta gama de reservatórios e fontes de transmissão que contribuem para a alta prevalência da infecção humana, já que permite que diversos alimentos possam ser contaminados caso não haja a correta preparação e sanificação do local de manuseio e embalagem.

Como o principal habitat dessa bactéria é o trato intestinal, os principais casos de contaminação de alimentos são ovos, carnes e o leite. Esses, quando consumidos sem estar bem higienizados e cozidos, podem permanecer contaminados e transmitir a Salmonella.

 

Riscos para a saúde humana

 

O principal problema envolvido com esta bactéria é a salmonelose. Os principais sintomas envolvidos na patologia são diarreia, febre, náuseas, às vezes acompanhada de vômitos, e cólicas abdominais. Esses sintomas começam a aparecer entre 12 e 72 horas após a infecção, podendo durar de 2 a 7 dias.

Os sintomas da salmonelose são relativamente leves e grande parte das pessoas acometidas se recuperam da doença sem necessidade de tratamento específico. No entanto, em alguns casos, a infecção pode se espalhar dos intestinos para a corrente sanguínea e, assim, acometer outros órgãos do corpo, podendo levar à morte. Nesses casos, a pessoa deve procurar imediatamente ajuda médica especializada para que seja tratada rapidamente com uso de antibióticos.

Além desses incômodos causados pela salmonelose, um pequeno número de pessoas desenvolvem dor nas articulações, conhecida como artrite reativa, que pode durar meses ou anos e pode levar à artrite crônica, a qual é de difícil tratamento.

Assim, as contaminações por Salmonella vêm representando um grande risco para a saúde humana e animal, principalmente devido aos locais onde elas são encontradas e pela capacidade de sobreviverem a diferenças de temperaturas. Nesses processos de contaminação, é fundamental identificar qual o sorotipo da Salmonella, uma vez que diferentes sorovariedades podem apresentar diferentes riscos aos seres humanos e animais, na medida em que alguns desses podem ser mais patogênicas em relação a outros. (Veja também: O que causa as doenças transmitidas por alimentos).

Referências

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